O QUE É A VIRTUDE?
A suprema dádiva humana é o livre arbítrio. Temos escolha! Para alguns é mais difícil e para outros é mais fácil fazer a escolha e agir. As dificuldades se explicam através de pelo menos três coisas: o peso genético, explicado por Darwin, Freud nos explicou sobre o peso do inconsciente e Marx, o peso dos modos de produção. Nenhuma destas pesadas categorias são condicinantes absolutas. Quanto mais difíceis as condições, maior o valor da escolha por causa da coragem agregada a ela.
Falar da coragem é fácil. Difícil é tê-la!
A maioria dos corajosos só o são quando estão em alguma condição de vantagem. A certeza de alguma contrapartida não retira o valor das atitudes como um todo, mas com certeza retira a virtude. Estou em busca desta coisa mágica que é a virtude.
Muitos bandidos esculhambam suas vítimas porque estão armados. Sem a arma seriam meros covardes.
Muitos ‘corajosos’ chamam o outro para a briga por ninharia porque estão em vantagem: porque têm mais músculos ou porque dominam alguma técnica de luta marcial. Muitos chefes oprimem seus subordinados por se sentirem ofuscados em seu cargo e na sua vaidade e interesses escusos.
Muitos pedem demissão de seus empregos quando já tem outro pré-arranjado. Está perdendo algo mas com a certeza de ganhar por outro lado.
Há ainda o temerário. Aquele que não tem noção do perigo. Não é um corajoso em si. É alguém que beira à extinção porque é destituído de medo. Vai enfrentar um leão e é comido por ele. Este não arrisca nada porque nem sabe o risco que corre.
Como dizia André Comte-Sponville , há os que "... se fazem de corajosos porque o risco é para ser corrido daqui a dois anos, e morrem de medo quando estão cara a cara e nariz a nariz com o perigo".
Vi coragem de verdade em poucas vezes na minha vida. Uma delas foi a dos metalúrgicos do ABC em 1980. Os diretores do sindicato tiveram coragem, mas não falo tanto dos diretores do Sindicato, porque estes, na maioria, já eram quadros políticos e estavam, de certa forma, mais seguros. Não arriscavam tanto quanto os trabalhadores comuns. Falo mais destes, dos trabalhadores comuns que arriscaram tudo sem garantia alguma de qualquer contrapartida. Estive por lá e vi que aquele gesto, aquela atitude foi mais que uma ação política dos cidadãos. Foram momentos mágicos desencadeados pela virtude. Assim falava Goethe: “...existe uma verdade elementar: no momento em que nos comprometemos, a Providência também se põe em movimento. Todo um fluir de acontecimentos surge a nosso favor. Como resultado da decisão, seguem-se todas as formas de coincidências, encontros e ajuda, que nenhum homem jamais poderia ter sonhado encontrar. Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, você pode começar. A coragem contém, em si mesma, o poder, o gênio e a magia."
Que acrobacias mentais teremos que fazer usando a história, a sociologia, a filosofia e a política para explicarmos como, depois de 500 anos começamos a realizar no Brasil o sonho de todos os excluídos?
Não vou entrar em contradição e falar em uma verdade absoluta entre nós. Vou finalizar esta reflexão com o que entendi de “O Processo” de Kafka: há pelo menos uma porta para saímos dos nossos problemas e ela está na nossa frente. Atravessá-la depende só de nós mesmos . Sartre dizia que a epifania, isto é, um entusiasmo repentino, em outras palavras “baixou o santo” ou seja a manifestação concreta de um poder além do homem, é enfim, com diz Sponville, o instante de coragem é o ponto de tangência entre o presente e o futuro do homem. Mais ainda, a frase que Lula cita invariavelmente, que ele leu no banheiro de uma fábrica, certamente escrita por um trabalhador comum é: mais vale as lágrimas de uma derrota, do que a vergonha de não ter lutado. Veja quem escreveu a partitura para o maestro.
Abraços
Aldo

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