quarta-feira, 26 de agosto de 2009

AS DESIGUALDADES E AS RAIZES DO PRECONCEITO



AS DESIGUALDADES E AS RAIZES DO PRECONCEITO
O que é o preconceito? É um conceito estabelecido a priori, isto é, antes de uma reflexão amadurecida. Lembro-me do posicionamento de um cardeal da Igreja Católica sobre o controvertido filme: 'Je vous salue Marie' - Eu vos saúdo Maria, de 1985, um filme franco-suiço, de Jean-Luc Godard que conta como seria, modernamente, o nascimento de Jesus Cristo. O cardeal disse, na TV, “não vi e não gostei”. Há fundamento filosófico na posição do cardeal. Trata-se da idéia metafísica da verdade absoluta e do universalismo da Igreja. É o acessório que acompanha esta posição filosófica – o exclusivismo acerca da verdade. A verdade absoluta tem dono! Os católicos, os evangélicos, alguns visionários utópicos e todos os que se proclamam portadores da verdade. Acontece que este posicionamento explícito destas agremiações estão embutidos e formatados na mentalidade nossa – ocidental – e aparece nos momentos mais cotidianos. Está no comportamento cruel de depreciar, adjetivar negativamente ou humilhar o outro devido a suas diferenças.
Vamos voltar para o chão! Chamamos de traidor quem não defende os mesmos princípios que nós na política. Chamamos de cabeça chata o nordestino, de ladrão o negro, de vadio o índio e etc. Por vezes, estes também reiteram o mesmo vício desqualificando os outros.
Vou fazer um exercício de reflexão baseado no livro “A origem da família, da propriedade privada e do Estado” de Engels, sem lero-lero sobre suas referências bibliográficas.
É pré-histórico o surgimento do patriarcalismo, quando o homem passa a subjugar a mulher. Nas palavras de Marx, “a exploração do homem pelo homem iniciou-se com a exploração da mulher pelo homem.” Enquanto não havia diferenciações sociais e econômicas, as diferenças de gênero não eram sentidas de forma excludente. Eram fundadas apenas na diferenciação fisiológica entre os gêneros masculino e feminino. Com a desigualdade social, surgida da apropriação dos bens de uns por outros, as aparências e os comportamentos diferenciados passam a ser arma de guerra. Algumas da características físicas das pessoas são as seguintes: no homem são as da força, velocidade e foco, necessárias para a caça e a guerra e nas mulheres a tenacidade, mentalidade civilizatória, a visão ampla para organizar o ambiente, maciez da pele e voz de veludo para acolher o nenê, acalmá-lo e protegê-lo em seu aprendizado. Isso, em uma sociedade excludente e desigual, reveste-se de uma importância que originalmente não teria se não houvesse a desigualdade social, fonte da injustiça material e causador da falta de liberdade. O mesmo verificamos na nossa “democracia regional-racial”. Caracterizar alguém de nordestino em São Paulo é motivo para que, um candidato a pleito eleitoral não tenha votos da parcela paulista preconceituosa, mesmo que o candidato seja excelente. Lula e Genoino foram exemplos clássicos disso. O racismo que as cotas para negros vem, em parte reparar, tem sua razão de ser neste contexto. No final do século XIX e no XX, uma avalanche de ex-escravos passaram a pleitear um lugar ao sol da cidadania. As elites brancas fizeram reserva de mercado utilizando-se do preconceito como arma de guerra cultural que encobria uma guerra social e econômica. Manter a desigualdade foi a razão para serem criados os estigmas que povoam o linguajar preconceituoso. As raízes do preconceito, portanto, remontam a um problema maior causador de todos os outros: a desigualdade.
Abraços
Aldo
Um mundo melhor é possível!

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